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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Narciso

        Em meio aos escombros ele acorda. Atordoado, leva a mão à testa e sente algo grudado em sua pele. Sangue. Sangue seco, sangue frio. Ao ver o sangue seco em pedaços nos seus dedos, lembrou-se que estava com uma tremenda dor de cabeça. Tornou a deitar no chão, de costas, olhando o teto girar. Seria o teto ou suas vagas lembranças que giram nesse momento? Nauseado, deitou de lado e sentiu um caco de vidro espetar sua orelha. Vidro. Sangue. Nada muito incomum, pelo menos pra ele.
        Tentava lembrar o que acontecera, e tudo que lhe vinha em mente era uma grande nuvem branca, como se fosse assim um algodão doce recém feito, quentinho. Uma nuvem quente e envolvente. E lembrava-se que nela ele tudo podia. Tudo que queria poder e que não deixavam, naquele momento dentro dessa névoa compassiva, era permitido. E esbanjava tudo que tanto escondia, dores, raivas e amores. Libertava a alma de tanta angústia, tornando-se imortal nesse imensidão branca, nesse mergulho em si mesmo, nessa vontade de ser maior do que se é de poder esmagar tudo apenas com a força do pensamento. 
         Contudo, a força que usava não era exatamente a do pensamento, e o que destruira ali, naquele recinto, não chegava nem perto dos verdadeiros muros que deveria quebrar em sua vida. Quebrar copos, paredes e eletrodomésticos, é, de certa maneira, tarefa ridiculamente fácil, quando na verdade se quer mesmo é quebrar sentimentos e relações tão fortes e lapidados ao longo dos anos que quem sabe só uma tsunami seja capaz de quebrar. Mas não, nem isso. É preciso mais que cataclismas pra quebrar certas pseudo-verdades que se fazem tão certas aqui dentro. Tinha mais medo de verdades inventadas que de aranhas. Aranhas pelo menos são reais. Perder a vida pelo que existe só dentro da própria cabeça é um preço muito alto que essa coisa chamada "loucura" exige.
         Não estava disposto a pagar esse preço. Não lhe agrada acordar de tempos em tempos jogado ao chão, em meio a cacos de vidro e seu próprio sangue, que quem sabe nem seja só seu. Agressões gratuitas à coisas que não são, de fato, que lhe fazem mal ou lhe irritam. Ele não era seu pior inimigo; apenas estava tentando sobreviver, não da melhor forma, mas da única forma que vislumbrara no dia de hoje. Sabia que sua vida não pode ser feita de nuvens e escombros. Deve haver coisa melhor pra se viver.
          Dito isso, ainda que mentalmente, levantou-se do chão ainda nauseado, e viu tanta coisa destruída. Móveis, eletrônicos, pratos, sentimentos. Tudo ao chão, como se nada valessem. Como se nada valesse a pena. Sabia, lá no fundo, que tudo isso não passava de raiva pelo não dito, pelo não visto, pelo não vivido e mais ainda pelo vivido que ainda doía. Sabia que era covardia descontar em copos o que sentia por outras coisas e pessoas da vida. Sabia que não era de si mesmo que sentia raiva, ou vergonha. Ele sabia. Todos os rancorosos sabem porque se autodestróem.
         Mas, como aprendemos a viver de atalhos, socou mais uma vez sua cabeça na parede, sentindo-se culpado por tudo. Tudo que já aconteceu, que está acontecendo e que ainda está por vir. Sentia-se inclusive culpado por sentir raiva de si mesmo, não devia culpar-se quando na verdade sente tanta raiva e medo do mundo. O inferno são os outros, e disso ele sabia muito bem, mas só conseguia descontar a raiva em si mesmo, por não saber apontar os verdadeiros culpados. Quem sabe porque odiar-se é sempre mais fácil que odiar o que se ama, mas que talvez não nos ame de maneira recíproca. O amor e ódio são realmente vizinhos, concluiu. O amor pode gerar tanto ódio. Mas uma vez chegado ao ódio, era impossível chegar ao amor. Odiava-se por não odiar as coisas que deveriam ser odiadas.
         E ainda cambaleando, chutou todos os pedaços que viu pela frente, pegou sua carteira, e saiu. À procura de nuvens brancas, de falsos culpados, de qualquer coisa que lhe levasse pra longe de si mesmo. Saiu à procura de qualquer coisa que não fosse espelho. 

sábado, 10 de março de 2012

Didn't I give it all? Tried my best
Gave you everything I had, everything and no less
Didn't I do it right? Did I let you down?
Maybe you got too used to by having me around

Maybe I should leave to help you see
Nothing's better than this, and this is everything we need
So, is it over? Is this really it?
You're giving up so easily
I thought you loved me more than this

I'll change if I must
Slow it down and bring you home,
I'll adjust.
Oh, if only, if only you knew
That everything I do is for you.

But go on and take it
Take it all with you
Don't look back at this crumbling fool.

sábado, 21 de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

conjunto vazio


Não sirvo pra fazer ninguém feliz.
Não sou suficiente em nada. Absolutamente nada. Não sei o que vêem em mim, mas certamente a bondade está nos olhos de quem vê. Cada um enxerga o que quer e da forma que bem entender e quando olham pra mim, sempre vestem as lentes da benevolência.

Em nada sou útil, nada do pouco que sei serve pra alguma coisa.
Nada sei. Muito menos sei quem sou.
Sei que amo. Que choro. Que penso. E que sofro.
Sei também que odeio e que desprezo. Menosprezo. Mas não minto.

Tudo que eu toco se desfaz. Tudo que eu olho vira pedra.
Tudo que eu sinto não importa. Tudo que eu faço é um erro.
O meu tudo vira um grande nada aqui dentro.
Preencho o vazio, mas ele não me preenche.

Acrescento nada para ninguém. Não faço diferença.
Às vezes contribuo negativamente.
Nada do que tenho ou sou é bom. Nada sou.
O nada sou eu.

Acho que nem existo.
Quem dera eu realmente não existisse.
Sou um conjunto de tantas coisas que não deveriam existir.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

conteúdo


Dizem que o vazio contem tudo. Não me lembro onde li isso, só sei que pela primeira vez na vida essa frase começa a me fazer sentido. É um paradoxo, pois  o tudo é tão grande que quando a gente se depara com ele, tudo que vemos é um grande vazio.

Acho que estou encarando o tudo da vida. Não o todo, mas o tudo. São coisas diferentes. Meus olhos são incapazes de ver o todo, mas podem vislumbrar tudo que quiserem. Tudo que  se permitirem. Época de permissão, de concessão, de extravasar. Tempo de liberdade. Tempo de soltar-se de amarras, ou escolher aonde quero me amarrar.

É um tempo bom. Tem sido um tempo muito bom. E aí surge uma coisa curiosa. Sempre botei a culpa de tudo que não dá certo, na loucura. Ela foi sempre a culpada. Sempre a que impediu a vida de acontecer. A que sempre me amarrou. Pois bem, ouso dizer que tem sido tempo de sanidade. Talvez não plena,  mas jamais estive mais sã do que agora. E o que faço? O que quero? Vejo que a culpa não foi da loucura. A culpa por não ter feito nada. A culpa também não é da sanidade.
Seria a loucura a desculpa perfeita que arrumei esses anos todos pra não, de fato, viver? Por que eu fujo tanto assim da vida? Antes eu achava que ela fugia de mim, mas hoje vejo que eu estava errada. Ela não foge. Eu fujo. Eu corro. Eu me escondo.

Sempre quis tanta coisa, tanta coisa que me parecia tão distante porque algo me impedia. Hoje nada me impede e tudo está tão perto. Perto demais, que até mesmo vira um grande vazio.
Muitas possibilidades. Tantas que até me perco. Tantas que não sei qual escolher. Tantas que nenhuma me apetece. Quero tudo. Quero nada. Talvez isso queira dizer exatamente a mesma coisa, não é? Vai ver que não mudei em nada. Vai ver que o nada e o tudo são a mesma coisa e me contemplam o tempo todo. Preciso lidar com meu nada. Preciso me achar nesse tudo.

Não estou triste. Apenas sem saber o que fazer. Parece que é tudo tão bom que não quero escolher... queria me jogar na imensidão desse tudo. Queria conter tudo, e queria que tudo me contivesse.

E no vazio dos dias, vejo a plenitude em cada coisa e me pergunto: o que sou?

Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto. E nesses dias tão estranhos, fica a poeira se escondendo pelos cantos.

sábado, 30 de julho de 2011

O mal do século

" E mentir é fácil demais... mentir é fácil demais.... "

São tantos males hoje em dia, que fica difícil escolher um só.

Na verdade, eu sei muito bem qual é o mal do século, porém não é dele que vou falar hoje. Me permito 15 minutos ( na real, tá mais pra 15h, ou 15 dias, mas enfim) de surto psicótico, com crenças bizarras em coisas não tão confiáveis – ou não -.

O mal dessa vez, é o mesmo de sempre. Aquele que me faz sentir a pior das idiotas do mundo. Aquele gosto amargo da frustração e aquela sensação nitidamente azeda de estar sendo, mais uma vez, vítima da minha crença no que as pessoas me falam. Devo dizer, com toda a sinceridade, que não é fácil hoje em dia me fazer acreditar. Não é fácil tirar-me o viés de desconfinça. Não me deixo levar mais, pelo menos é o que achava. Já tenho tantas cicatrizes que jurei pra mim mesma nunca mais acreditar em coisas que não existem, desde elefantes rosa até promessas de alguém.

E eu achei que estava indo bem, juro que achei. Por algum tempo pensei que nada nem ninguém mais me faria sofrer. “Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei, com a estrada errada que eu segui, com a  minha própria lei”. E em certos aspectos, minha lei é extremamente exigente e intolerante. Odeio me frustrar. Odeio criar falsas esperanças.

Tem uma parte de mim tão descrente e amarga quanto um velho, ao fim de sua vida, abandonado num asilo por todos aqueles que um dia disseram – e juraram – lhe amar. Essa parte de mim existe, e por muitas vezes é soberana. Foi uma necessidade real e concreta tornar esta parte soberana. Pra não sofrer. Pra não surtar.

Mas tem outra parte... ah, tão doce. Tão ingênua e tão meiga, tão feliz e saltitante. Tão esperançosa de que, tá, dessa vez vai sim ser diferente! Tão cheia de certeza, sem medo de se entregar, de acreditar, de se doar cem por cento. E confesso que morro de dó dessa parte, porque ela sofre tanto. Muito mais intensamente do que minha parte velha abandonada num asilo, pode ter certeza.

E por tanto tempo tentei extingui-la – essa parte que acredita -, mas ainda há algumas coisas ou pessoas que fazem ela surgir, ainda que contra a minha vontade.

E é tão bom enquanto dura. Tão bom.

Mas não importa, não importa o que eu faça, dura pouco. Sempre dura pouco. Nunca é real.
A frustração sempre vem ao meu encontro. Meus olhos invariavelmente abrem suas portas, e aquele gosto salgado na boca permanece por algum tempo. Tempo suficiente pra que eu não saiba nem pra onde ir, ou pra onde correr.

Sei que sou sempre a que fala demais, come demais, sente demais, pensa demais, age demais, dorme demais. Sempre sou a exagerada demais. Eu (quase) sempre estou nos extremos. Eu quase sempre tenho motivos pra sentir aquele gosto salgado na boca.

Eu confesso que me odeio um pouco por ser tão exagerada. Por que eu não posso ter a capacidade de julgamento como uma pessoa normal? Por que eu nunca sei o que vai ser bom ou ruim? Por que eu sempre escolho a porta errada?

Chego a concluir que todas as portas são erradas. E parte de mim aprendeu isso há muito, muito tempo. Só que não é sempre que a gente se contenta em apenas observar a vida lá fora pela janela.

Tentar viver é algo que me acontecesse de tempos em tempos. Tentar. Nunca consegui.

Concluo, pela milionésima vez, que nada é capaz de me tirar esse salgado da boca e me dar abrigo. Infelizmente, mais uma vez o sabor da frustração vem me lembrar de que infelizmente estou viva, apesar de o meu bote quase afundar tantas e tantas vezes. Nenhuma âncora, nenhum cais. Nada.

E digam o que disserem, o mal do século é, de fato, a solidão.




"And where, where do I go to feel good?"





quinta-feira, 7 de julho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O mundo real, as árvores e o céu.
O prédio e o concreto, as escadas e as paredes.
As pessoas. 

As folhas e as canetas.
O vento, e as folhas.
O ar. O invisível. 
O impalpável,
que é visivelmente presente.
O inegável.

A vontade. A indecisão.
A necessidade?
Tantas necessidades.
O precisar. E a imprecisão.

O teto. O muro.
O gato. O pulo.
A mala. O livro.
O copo de suco.

A música. A figura. 
Criatividade.
O branco. 
O carinho. A amizade. 

O ser.
O não ser.
O tudo e o nada.

Olhos abertos, pálpebras cerradas.
Boca seca.
Coração quente, mãos geladas.

Passo por passo.
Letra por letra.
Movimento. 

Pra que lado?

Onde estou?

Pensar nem sempre é uma opção.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

weak leak

Eu não mereço?
Medo da cortina que se abre.
Há a possibilidade de mudança.
Mas não, não sou assim!
Não aceito mudar.
Aceito sim.
Aceito?
Batalha interna.
Duas pessoas.
Opostas.
Alteração na correlação de forças.
A negativa já não vence.
A positiva ainda teme.
Tenho medo.
De não dar conta, e ter estado certa esse tempo todo
quando digo e repito que não presto.
Tenho medo de dar conta, e ter que inevitavelmente viver.
Tenho medo de crescer.
Tenho medo.
De estar fazendo cagada.
E se eu me perder?
E se eu nunca me achar?
E se isso for só uma desculpa
- mais uma! -
pra fugir da vida?
E se eu nunca mais voltar?
E se eu me perder?
Se eu não souber o que fazer?
E se eu continuar não sabendo de mim?
O que me garante que me encontrarei?
Quem disse que quero viver?
Isso é pro bem ou pro mal?
Quero viver ou morrer?
Quero agir ou camuflar?
Eu acredito ou não?
Eu quero ou não?
Vale a pena ou não?
O que será de mim?
O que virá?
O que deixarei pra trás?
O que vou escolher?
Em que tudo isso vai me mudar?
O que farei depois?
Estou me definindo?
Mas o intuito não era libertar?
É um processo ativo ou passivo?
Molde ou liberdade?
Eu vou dar conta?
Vou estar sozinha?
O que vai me ajudar?
O que vai me ajudar?
O que vai me amparar?
Pra onde posso correr?
O que farei com todas as horas?
O que elas farão de mim?
Como sairei disso tudo?
Eu vou sair disso?
Há esperanças?
Há futuro?
Devo tentar?
Ou devo fugir?
Devo ficar ou partir?
Pra onde correr?
O que carregar?
O que permitir?
Que palavras gritar?
Não quero correr.
Não quero ficar.
O que querer?
Depende de quem quer.
Tem duas de mim.
Tem duas de mim.
Quem sou eu?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Nada.

De tudo que vem
De tudo que chega
De tudo que vai
O que fica?

Dos dias, das horas,
de cada segundo, de cada palavra,
de cada risada, de casa desabafo,
o que resta?

Toda a relutância, toda a negação,
todo o esforço em dizer : não.
De tanta insistência, o não se foi.
E o que ficou?

Marés vem e vão.
Vem e vão.
Vem, mas também se vão.
Em vão.

De tudo que eu não quis querer,
de tudo que eu achei que podia ter.
De tudo que me ofereceu conforto,
o que ainda tenho o direito de desejar?

Não é questão de aprender;
não se controla o fluxo dos sentimentos.
Controle não existe; existe!
Não existe.
Existe sim!
Sei lá...

É tudo um grande arrependimento.
Pelo sim, e pelo não.
É tudo um grande sofrimento.

É como ir atender a campainha que toca incessantemente.
Ignorar, como?
Vencido pelo cansaço.
Abre-se a porta, e, cadê?
Nem o vento ousa dizer um uivo.

Não há palavras que consertem.
Não há palavras que respondam.

Só o vazio responde minhas perguntas.
O vazio dos dias  e o silêncio das horas.

E me respondem com uma pergunta retórica.
Simples, porém fatal.

Minha cara, ponha tudo na balança.
Tudo que veio, tudo que foi, tudo que machuca e que conforta.
E aí sim, após essas ponderações, nos diga
o que te sobra?

domingo, 24 de abril de 2011

Cansei.
De não ter pra onde correr.
De não saber o que dizer, nem o que sentir.
De não encontrar o conforto em lugar algum.

Cansei de esperar.
Cansei de sonhar.
Cansei de achar.
E de procurar.

Cansei.
De pensar que tudo melhora.
De insistir que há no mundo compreensão.
Cansei de tentar me encaixar.

Cansei de ilusão.
De ver tudo que não existe.
De viver apenas dentro da minha própria cabeça.

Cansei de achar que a intensidade é boa.
Que sentir demais é normal.
Que entregar-se por completo não é ruim.

Cansei de tanto apanhar.

Cansei de mim. Da vida. De tudo.

Cansei.

quarta-feira, 23 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

starry nights

Me pego olhando pro céu e indagando
quais serão as estrelas que brilharão no meu céu daqui alguns anos.

Às vezes parece tão fácil olhar pra cima, tirar uma fotografia mental de tudo como está e dizer:
é sempre assim.

Será que é?


Qual o limite de tempo que define o pra sempre?


Sei que os céus mudam.
O meu já mudou tantas vezes.
E dá sempre uma tristeza olhar pra cima, admirar cada estrela, uma a uma,
e depois lembrar que é possível que amanhã ela não esteja mais ali.
E que é muito provável que suma daqui alguns anos, caso amanhã ela ainda ali esteja.


Gosto de olhar pra cima e tirar minhas fotografias mentais.
De tanto tempo bom que ficou pra trás. De tanta coisa boa que já não existe mais.


Guardo comigo tantos e tantos retratos.
É verdade que alguns resolvi jogar fora.
Não deveria, mas joguei.


A cada vez que se olha o céu e se vê as estrelas exatamente da forma como a gente queria,
bate uma pré tristeza infinda.
Pois o fato é que vai mudar.
Vai mudar.


E mudanças podem ser necessárias.
Mas... deixa eu contemplar meu céu nesta noite,
assim, calada.
Admirada e com água no canto dos olhos.


Lágrimas de quem não quer perder a visão que tem.

quinta-feira, 10 de março de 2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

lógica informal

Queria me dividir em 3 personalidades hoje, pra cada uma falar de uma coisa diferente.
Que quem sabe se juntem e dêem a treta maior no final.

Mas não consigo tal grau de dissociação de consciência, ainda.
Dessa forma, vou escrever coisas incoesas, misturar assuntos, pular informações, misturar a porcaria toda.

Uma das coisas mais complicadas do mundo é se sentir inútil. É estar ali, dentre várias pessoas, construindo algo em conjunto, e saber que a sua presença ali, ou não, não faz simplesmente A MENOR diferença.
É destruidor entender que, não importa o que você faça, você não vai contribuir para o crescimento do todo.
Qual o sentido de nadar contra a corrente? Qual o sentido de existir?

Tem gente que se sente inútil vez ou outra, e logo supera; tem gente que jamais se enxergou enquanto inutilidade. Há os que achem uma coisa boa em todas as coisas, até nas piores possíveis, e assim nunca se sentem menosprezados ou menosprezam qualquer coisa. Eu, claro, sempre cavo a pior forma de enxergar as coisas. A minha forma é sempre a de partir do pressuposto que o que estou fazendo não serve pra nada.
Empolgante viver assim, uhul.
Não digo que seja tedioso, nem que seja bizarro; já superei essas duas adjetivações. Creio que seja apenas triste. Triste pra caramba.

Além disso, ou atrelado a isso, vem a solidão. Como é que você explica pra uma pessoa todas essas piras e tenta se fazer entender? Impossível. Acaba que você se isola. Porque quando tenta não se isolar, o isolamento acaba sendo uma consequência inevitável. Seja porque o ouvinte não entende porra nenhuma do que você quis dizer, te acha maluco e te ignora pra sempre, ou seja porque você fica mal pra caramba ao colocar o ouvinte em maus lençóis (visto que ele não entende e fica angustiado por não conseguir fazer nada por você), e aí você fica se sentindo pior ainda, e acaba se isolando por mais um longo período, para pelo menos se manter na inutilidade.
Porque afinal, muito pior que ser inútil, é ser maléfico.

Aí você sabe que é inútil, com potencial pra prejudicar as pessoas, e está sozinho. Receita certeira para o que eu chamo de "vai dar merda".
E sempre dá.
Sempre deu. Sempre dará.
Pensei por alguns instantes que me livraria desse tormento, que conseguiria racionalizar as coisas e assim me livrar dessa maldita impulsividade. Consegui com muitas coisas, não digo que não tive um avanço fenomenal; porém, não foi suficiente.
Creio que por sair da análise da lógica formal é possível traçar um caminho diferente ao se deparar com suas próprias insanidades. Pude perceber isso na prática, é incontestável.
Mas ainda não sei ainda se é impossível não dar conta, ou se ainda não consegui aprender a pensar não-formalmente.

Em todo caso, hoje é um dia em que o presente e o passado se superpõe, e eu tô misturando todos os sentimentos que consigo.
Nem sempre a união de coisas tão opostas acaba sendo agradável; hoje está sendo bem explosivo.
Caos total.

E parece que só existe uma saída.
E não é pela porta da frente.

Caos.
Caos.
Caos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ultrapassando o limite entre o normal e o patológico.

você não sabe o desespero que é assistir, de camarote, sua própria desgraça.
saber de cor aonde tudo isso vai chegar.
sentir aquela coisa ruim por dentro, saber diferenciar cada nuance da tristeza como se fossem tons de branco.
sim, há diferença.

não sei nem explicar o que sinto neste momento.
é como assistir seu próprio funeral.
inexplicável em palavras. leia as lágrimas, por favor.

que coisa estranha sentir-se apagando aos poucos.
fazia tanto tempo que não me sentia assim... vazia.
ou cheia de tanta coisa ruim.

hoje de manhã ainda pensei: ufa. tô triste, mas to bem.
aí lembrei que já não tive energia pra sair da cama, e que só consegui sair dela à tarde, por questão de compromisso.
hmm... hesitei.
mas ainda assim tudo estava dentro das suas devidas proporções.

até agora.

limites e derivadas

Penso que amizades não deveriam ter limites.
Me dôo por inteiro em se tratando de amigos.
Têm acesso a tudo que é meu, até mesmo os medos mais intrínsecos e psicanalíticos possíveis.
E nunca hesito em mostrar (quase) tudo que sou.

Às vezes as pessoas me fazem mal. Creio que isso seja normal.
Ainda mais para pessoas sensíveis como eu. Paranóicas como eu.
Mas procuro racionalizar ao máximo, afinal, na maioria das vezes não passam de caraminholas.

Descobri isso quebrando muito a cara.
Perdendo muita gente importante por bobeira.
Deixando de fazer o que eu queria em nome de um ego e um orgulho bestas.
Chorando lágrimas sinceras de tudo que podia ter sido, e que não foi.

Hoje sei que, se chamo alguém de amigo, é porque nesta pessoa posso confiar.
Não tenho muitos amigos. Isso nem um pouco me incomoda.
Só demonstra como sei escolher bem as pessoas que terão acesso ao mais central de mim.

E o que dizer então dos amigos camaradas?
Esses sabem mais de mim do que eu mesma. Disso você pode ter certeza.
Não escondo nada deles.
Amo-os e confio neles de olhos fechados, na beira de um precipício, estando com a marcha atáxica.
Pouco me importa: sei que jamais fariam algo que fosse ruim pra mim.

E por isso me entristeço, de ver que meus próprios amigos possam não me conhecer.
Não saber do que sou capaz, ou o que quis dizer.
Sou transparente.
Jamais faria algo de ruim conscientemente.

Talvez tenha feito sem perceber. Todos erram, não é?
Erro também. Normal.
Estou deixando minha fase anal pra trás. Imperfeições estão por aí, e eu certamente sou uma delas.

Porém, se tem algo que não admito, é que desconfiem da minha lealdade.
Ou da minha sinceridade.
Ou de tudo que digo ser, e que de fato o sou.

Odeio preconceitos. Nunca curti essa parada de sair reproduzindo mundo afora o que não tenha sido passado por um pensamento paranoicamente crítico antes.
Sou assim, pré conceitos não funcionam comigo.

Se luto por uma sociedade de iguais, como poderia eu sacanear alguém que amo?
Que é um amigo e camarada?
Que divide tantas coisas boas e ruins comigo, e que me deu uma bela amizade de presente?

Não posso crer que isto esteja acontecendo.
Principalmente por eu estar somente na suposição.
Odeio essa ansiedade de ficar adivinhando o que o outro está pensando.
Tão simples conversar, não é?

Talvez simples mesmo seja dizer para os outros conversarem e se resolverem.
Agora, fazer é difícil.
E sabe o que, até que entendo.
Se me desse uma chance de falar isso, eu diria isso, que entendo.

Já precisei de tanto tempo pra pensar. Não sou espontaneísta.
Tirei dias e dias só elaborando o que falar pra quem tenha me magoado.
Mas nem por isso ignorei, sacaneei ou fui cruel com ninguém.

Porque sim, é crueldade saber que alguém está morrendo de preocupação e de culpa, e não dizer nem um: ei, estou vivo, estou aguentando o tranco, outro dia conversamos.
Não acho isso legal.
É bastante desrespeitoso, inclusive.

Escrevi, tentei falar, toquei o interfone, deixei um bilhete, mandei sinais telepáticos.
Nada.
Se terei que me manter nesta angústia, pois sim sou extremamente ansiosa, que seja.
É o que me resta.

Estou aqui, no meu cantinho....
com a luz acesa e a janela aberta.
Cansada de bater com o nariz na porta.

Caso mude de idéia, sabe onde me achar.

Mas não esqueça que você é parte de mim.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O império do sol




Foi você quem me ensinou a gostar de todo mundo,
A respeitar, e adorar, o diferente.
Me ensinou a encarar o mundo de frente, e levantar a cabeça mesmo quando o destino, ou um parente,
te coagia fisicamente a mudar de jeito.

Jeito... que jeito?
Esse jeito criança de ser? Esse jeito infeliz de viver?


Sei que você sofria. Na época achava que sabia, mas hoje tudo se torna claro
E vejo a realidade mais cruel do que nunca.
Você nunca teve seu espaço, seu cantinho, seus pertences.
Nunca teve um abraço de amor sincero, nem um sorriso de aprovação contente.


Sentiu na pele o que é o preconceito.
Sentia-o a cada chinelada, a cada cintada, a cada risada.
Sentia-o em cada emprego, em cada comentário daqueles que diziam te amar.


Sei que eu devia ter dado mais de mim pra você.
Sei que eu podia ter sido alguém melhor na sua vida.
Infelizmente, não tive nem maturidade, nem tempo suficiente.


Mas sinto-me feliz por saber que nunca, nem um dia sequer, zombei de ti
Nunca fiz pouco da tristeza que sentia, e da injustiça a que era submetido.
Gostava, e gosto de você, do jeito que você é. Do jeito que “D'us” te fez.
Gosto de você exatamente do jeito que você se gostava.


Nunca fiz pouco do teu sofrimento. Queria muito mesmo que você pudesse compreender isto.
Queria que você pudesse entender que te ver sofrendo era demais pra mim, eu não conseguia digerir toda a situação. Não entrava na minha cabeça o menor rastro de possibilidade de te perder.

Sei que a culpa era dela, e não de você.
Mas minha burrice me fez personalizar toda essa angústia em ti.
E me fez te enxergar, ao invés de debilitado, forte.
Me fez ver, quando te enxergava, alguém saudável, e não doente.
Me fez achar que era tudo passageiro, quando a gente sabia [ eu e você ] que não era.
Era mais real do que nunca. Era arealidade esmagando as nossas vidas.

Sinto falta de te ter por perto. De escutar as coisas bizarras que você falava, de escutar seus sonhos infantis e de certo modo estúpidos.
Falta de te ver dançando pela casa, de conversar com você.
Falta do abraço que você me deu no dia que eu não passei no vestibular. Lembra? Era tudo que eu precisava, de um abraço e mais nada. E você me deu um dos melhores abraços do mundo, e chorou abraçado comigo, e sentiu a minha dor como se ela doesse em ti.
Aquilo nunca vou me esquecer. Me senti amada naquele momento, mais do que nunca.

Compartilhávamos mais do que o resto do mundo podia imaginar. Sei que você se sentia um pouco deslocado, como eu. Mais ainda por ser quem você era. Estes sentimentos são coisas que só nós dois sabemos, por mais que os outros nos amem, sempre tem esse vaziozinho lá no fundo.

Admiro a força que você teve pra nadar contra a corrente. Admiro você ser essa pessoa maravilhosa que era, mesmo a vida te botando sempre pra baixo.
Não era o mais bonito, nem o mais inteligente, nem o mais querido. Aos olhos alheios, você deixava muito a desejar.
E eu te digo, meu querido, que te amo do jeito que você é, do jeito que sempre vou lembrar de ti: essa sensibilidade no olhar; essa ânsia por amar e ser amado; essa vontade imensa de ser feliz. Essa eterna procura por um lugar no qual seu sol, o seu próprio, pudesse imperar, e não o dos outros.
Não foi possível não é? Mas tua força ao tentar foi algo muito invejável e louvável.
Te admiro por isso, e por muitas outras coisas.


Uma das coisas mais tristes é saber que você não conseguiu ser feliz.
Isso realmente me deixa triste. A vida não foi justa com você, assim como não é com todos nós.


Saiba que tudo que fiz e deixei de fazer foi por amor.
Fui fraca. Fui fraca. Fui fraca.


Posso ter parecido um pouco prepotente, e um pouco negligente. Mas te juro, era apenas fraqueza.
Hoje ainda não é fácil pensar nisso tudo, e por isso na maioria das vezes não o penso.
Mas afinal, é seu aniversário, e acho que já está na hora de eu encarar de frente esses medos, encarar de frente minhas limitações e os erros que essas limitações me fizeram cometer.


Errei.
Não queria ter errado, mas errei. Não queria ter errado, não com você, nem naquele momento tão frágil, mas errei.

Hoje, poderia ficar aqui falando horas e horas de como você faz falta, porque realmente o faz.
Mas não, ainda não é o momento. Ainda precisamos acertar as nossas contas.
Sei que te magoei, e pode ter certeza, me magoei também.
Não queria ter sido quem fui, nem ter feito o que fiz, mas não posso voltar no tempo.
Tem coisas que não voltam, e acho você é uma delas.

Por isso que neste dia, sinto que antes de falar o que você é pra mim, preciso dizer o que está entalado aqui há tantos e tantos anos. Queria poder te dizer isso olhando em seus olhos.
Aceite as minhas mais sinceras desculpas.
Por favor aceite.
Pra que eu possa seguir em paz, pra que eu consiga lembrar de ti somente com lágrimas de saudades nos olhos, e não de remorso.

Mil vezes, desculpa.
Com muito muito muito muito amor,


Feliz aniversário.

Amo você.
E te sinto em cada pôr-do-sol.