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terça-feira, 13 de março de 2012

Águas de Março

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração...

sábado, 10 de março de 2012

Didn't I give it all? Tried my best
Gave you everything I had, everything and no less
Didn't I do it right? Did I let you down?
Maybe you got too used to by having me around

Maybe I should leave to help you see
Nothing's better than this, and this is everything we need
So, is it over? Is this really it?
You're giving up so easily
I thought you loved me more than this

I'll change if I must
Slow it down and bring you home,
I'll adjust.
Oh, if only, if only you knew
That everything I do is for you.

But go on and take it
Take it all with you
Don't look back at this crumbling fool.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

aprendendo a voar

Preso no próprio corpo, preso pelas paredes, pela cidade.
Todo mundo espera algo dele.
Espera por todo mundo, e vive sentado esperando.
É tanta vida correndo, e ele está parado. Parando.
Tudo que se faz tem um preço,
e nenhum preço é justo.

Ele vivia. Respirava sem pressa.
Aproveita o que a vida lhe oferecia, com qualquer desleixo daqueles que
tem plena certeza de que a vida está apenas começando. Dia após dia.
Quanto engano.
E eram tantas ofertas, tanta gente e lugares,
tantas portas e pernas abertas, que se perdia.
Tudo parecia tão fácil e tão possível de se ter
que não tinha nada que de fato chamasse seu.
Tudo era tão volátil. Tão passageiro.
Tudo passou.
O que tinha, já perdeu.
O nunca teve, já se foi.
O que virá?

Resta a dúvida do amanhã.
Quem sabe o amanhã não seja assim tão duvidoso.
O hoje, do amanhã, pistas nos dá.
De que nem tudo que vem são pedras
De que nem tudo que vai são flores.

Sem ter como nem porque correr, permanece cá, sem pressa, mas com urgência.
Viver é urgente. Achar-se dentro de tanta vida e tanta morte é urgente.
Partes mortas de nós, partes que nascem em nós todo dia.
Todo dia contém um adeus e também contém as boas vindas ao novo.

Já não sorri com os mesmos lábios alegres e superficialmente abertos de outrora.
Já não chora tanto quanto antes, de desespero.
Já não se descabela, não apela, também não roga.
Não joga mais sua vida todo dia pela janela.

Ainda sente, sentir é pra sempre.
Mas sentimentos mudam, ah como mudam.
Ele mudou.
Ouso dizer que desabrochou.
Aos poucos, solta-se de si mesmo e de tudo que pensava ser.
Descobrindo a liberdade da escolha. Escolhendo a liberdade.

Sua vida já não tem mais aquele empolgante vazio. Aquela impulsiva superficialidade.
Tudo antes era um estardalhoso e grande vazio.
Percebeu que prefere a calmaria dos dias plenos. Plenos de vida, de vontades, de certezas e de sinceridade.
A plenitude não é quantitativa. É qualitativa.
E deve ser sentida, degustada, em cada letra, cada gota, cada dia.
A plenitude foi feita pra ser apreciada como um dia de céu azul, lindamente simples.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Via Láctea

A noite era quente e o céu nublado. A janela semi-aberta trazia rajadas de vento reconfortantes, que aliviavam discretamente a tensão que a corroía por dentro. Sentimentos tensionam a alma, o cérebro, e tudo mais que tiverem direito.

Já tomara um litro de café, já comera tantos tipos de comida, já falara de tantos assuntos com tantas pessoas, mas nada era capaz de lhe tirar a atenção por um minuto sequer daquilo que, há tempos e por variados motivos, prendia nas nuvens seus pensamentos.

Pegou, mais uma vez, uma folha de papel em branco e uma caneta qualquer. Há dias que tentava, e a cada dia queria dizer algo diverso do que pensara no dia anterior porque todo dia concluía alguma coisa diferente e queria muito eternizar este pensamento no instante em que fora pensado. Impossível. Tem coisas que não servem pra ser ditas, mas sim sentidas. Há tempos que o sentir se tornara absoluto, e não admitia ser desperdiçado para fora, apesar de ela querer muito compartilhar tudo que sentia, porque cada sentimento, cada pensamento trazia consigo uma beleza simples e plena e única, mas ao escrever, as palavras cortam o real sentido e densidade de tudo que se sente.

Apesar disso tudo, hoje sentia que era preciso falar. Tem coisas que já não cabiam dentro do peito. Assim começou a escrever,  na intenção de dizer a ele tudo que pensava, e que ele, por não morar na cabeça dela, não fazia idéia. Pensou em dividir com ele essa imensidão de coisas que tinha lá dentro. Queria lhe dizer que vê-lo sofrendo dói bem mais do que se o sofrimento fosse só dela. Que gostaria de abraçá-lo tão forte que ele nunca mais poderia dizer que está sozinho nem que ninguém se importa, porque a força e o aconchego dos braços dela envolvendo seu corpo o convenceriam disso. Queria lhe dizer que ela sente cada lágrima que escorre dos olhos dele escorrendo pelo rosto dela também, e que de longe ela as finge enxugar na esperança vã de que lá, onde ele estiver, as suas lágrimas estejam sendo secadas. Quis dizer, em algumas palavras, que a cada coisa simples do cotidiano que ela executava, fechava os olhos e mandava mensagens telepáticas na esperança de que isso ajudasse ele a ter a força necessária pra também realizar tal tarefa, por menor que seja. Queria muito dizer a ele que ela sabe como dói. E que queria a dor dele pra ela, porque é melhor sofrer o pior dos castigos do que ver alguém importante pra gente sofrer. Desejava que ele soubesse que ela sente muito por tudo que ele está passando, mas que ela tem certeza de que isso é temporário e que os dias vão voltar a ser azuis em breve, muito breve. Ela tinha certeza disso, e como queria que ele conseguisse acreditar nisso também. Queria dizer a ele que ela, mesmo estando longe, jamais o abandona em pensamento. E que, estando perto, jamais o deixará, nem física nem emocionalmente, porque a vida não teria mais porquê de existir se não fosse pra ver o sorriso dele. Como ela queria que ele soubesse o valor que ele tem. E que é forte o suficiente pra admitir que tem fraquezas. E também que o admira muito, cada dia mais, porque a cada dia que passa ela vê o ser humano que ele é. Humano. Triste e esperançosamente humano. Quis muito fazer ele entender que, não importa o que se passe, ela estará lá, do lado dele. Que ela queria estar fazendo um chá pra ele nesse momento, e lhe fazendo um cafuné no cabelo. Que lhe ajudaria a organizar a casa, e até trocaria de lençol, pra que ele pudesse se sentir um pouco melhor deitado na cama. Que traria seus discos preferidos pra eles escutarem juntos. Que abriria as cortinas, mesmo ele não querendo, e que deixaria o sol entrar naquele quarto tão cinzento. Traria suco de maçã com canudinho e leria em voz alta um trecho de livro ou poema qualquer pra preencher o vazio do dia. Queria que ele soubesse que não há quase nada que ela não fizesse pra fazê-lo se sentir melhor. Que ele era um presente pra ela, e que ela queria ser também um presente pra ele. Queria que ele soubesse o bem que faz a ela simplesmente por existir. Queria que ele nunca duvidasse que só com a presença dele é que seus dias conseguem ficar vivíveis. Que se os poetas se inspiram nas estrelas, isso pouco importa; a inspiração dela, era ele.

Queria dizer tantas coisas, e se perdia tanto nos pensamentos, que desistira. Não adianta. Palavras jamais traduzirão o que realmente sente. Desistiu de tentar traduzir-se pra ele com palavras. Ao invés de escrever páginas, rasgou um cantinho da folha que segurava, escreveu uma pequena frase e colocou em cima das coisas dele. No dia seguinte, com sorte, ele leria aquele bilhete; talvez desse um sorrisinho amarelo ao ler e não desse muita importância ao que lia. E ele continuaria a não fazer idéia de tudo que aquele “eu te amo” escrito num pedacinho rasgado de papel significava pra ela.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

saber viver?



“Decepção não mata; ensina a viver”.

Essa é uma das frases, que possivelmente, você mais vai ouvir na vida casoseja do tipo que sempre se envolve com as pessoas erradas nas horas erradas e tenha a sorte de ter algumas poucas pessoas ao seu redor preocupadas em te consolar, ainda que com uma frase vazia dessas.

Pois bem, pra começo de conversa eu já acho um disparate achar que tudo que é ruim ensina alguma coisa de bom ou de útil. Pelo que eu vejo, é bem pelo contrário: traumatizam, e traumatizam pra caralho. Através desse pensamento vazio, parece que é só por intermédio da frustração que a gente consegue aprender alguma coisa pro futuro. Esse reforço negativo, essa teoria da punição, em nada me agrada. E não é porque estou em negação; eu realmente acho isso uma baboseira.

Se assim fosse verdade, não veríamos várias pessoas por aí, figurativamente, batendo a cabeça na mesma parede por tantos e tantos anos. Insistindo nos mesmos erros, nas memas frustrações, tendo repetidamente as mesmas decepções. Se fosse uma simples questão de aprendizado, erros não se repetiriam.

Acho que isso passa pela necessidade de que tudo que vem de fora satisfaça tuas necessidades, as quais são criadas e existentes somente na tua cabeça e que talvez nem te sejam tão necessárias assim. Digo que nem sempre o que está ao redor está errado; quem sabe o errado seja você em querer que o resto do mundo seja do jeito que você queria que fosse.

Não extrapolo estas idéias para o âmbito político, econômico, social. Se trata aqui dos fenômenos interpessoais e relativizadamente pós-modernos que relacionamentos intra e inter espécie aparentam ter, e sobre cujas bases e origens, em sua últimíssima instância, não irei nem citar, pois sei que os desejos e medos são frutos do pensamento vigente de uma determinada época, a qual embasa e é a responsável pela amarga infelicidade cotidiana. Não entrarei neste mérito, é uma discussão difícil e quero aqui apenas discutir sentimentos, talvez de maneira vazia e inútil. Problema meu. Dito isto, podemos continuar com a fenomenologia das frustrações e dos sorrisos enferrujados.

Projeções, projeções. Projetar no que está fora todos os desejos e medos  que estão aqui dentro, e ainda esperar ser correspondido – ou melhor - obedecido. Como isso pode dar certo? Mesmo porque, desejos e medos, em sua maioria, quando não produtos do pensar, analisar e repensar, surgem em nós pelos mais múltiplos e variados motivos errados.

Eu me frustro pra caramba. Acho que, desde sempre, decepções e frustrações me consumiram horas e horas de vida, litros e litros de água dos olhos, noites e noites em claro, dias e dias na escuridão. Sinto cada decepção tão vívidamente como se fosse o suspiro derradeiro, o último segundo de vida. Sinto essa dor insuportável em cada detalhe, por mínimo que seja, com todos os seus tons. Sinto lenta, mas plenamente, cada pedaço de sordidez que o “decepcionar-se” pode proporcionar. Acho que sou muito dramática, exigente  e perfeccionista, ou quem sabe isso se resuma na palavra extremista. Ou talvez, mimada. Sei que vivo cada decepção como se fosse a primeira, e a última, da vida. Sinto um vazio, um desespero e uma desesperança incabíveis dentro de mim, mesmo quando o motivo da decepção já é repetido. E é claro que, a cada frustração que se sucede, mais muros e labirintos eu crio em volta desse lugar que tenho aqui dentro chamado “afeto”, pra que ele fique cada vez menos acessível, cada vez mais intocado, e eu portanto, cada vez menos sofredora. E isso não é bom. Isso não é viver, penso que seja muito pelo contrário; é deixar de viver porque se perde tanto tempo da vida se preocupando com o que virá nela, que se esquece de criar e inventar o hoje. Se não existe hoje, o amanhã deixa de ser uma incógnita para virar a certeza de um vácuo.

Constante tensão à espera da próxima desgraça, constante posição de ataque através de uma defesa inesgotável e incansável. Isso cansa. Consome energia, consome tempo, consome vida. Sinto-me a cada dia que passa, sendo corroída por esse dispêndio cruel de energia na vã esperança de me auto-proteger de viver, e por isso nada sobra – nem energia, nem foco, nem vontade – para ser gasto com  coisas construtivas. E nada vai pra frente. E você se frustra mais, e se fecha mais. E mais energia é consumida para viver em negação, raiva, tristeza e uma suposta indiferença. E mais vida é jogada fora.

Pra dar um basta nisso, há um caminho complexo a ser percorrido, que engloba enfrentar todos os medos, quebrar todos os muros, vencer todos os labirintos, caçar todos os fantasmas, entrar em todos os pântanos, ou seja, lutar contra si mesmo para tirar toda essa proteção criada meticulosamente ao redor daquilo que você tanto preza em proteger, porque dói quando utilizado incorretamente, que é o afeto. Afeiçoar-se a alguém exige tantos pré-requisitos, tanta confiança, tanta entrega, que o medo vence e o isola. O condena a viver na solidão; justo ele, que foi feito para ser compartilhado.

Com açúcar e com afeto, aos poucos o amargo do cotidiano vai sendo substituído pelo suave sabor dos dias de fato vividos, e não apenas existentes. Viver implica em muito mais do que ter medo das próximas horas que virão.

Mas, ao que parece, as exigências que criamos e impomos a tudo que está ao redor do nosso eixo não nos permitem enxergar que talvez toda essa enorme lista de defeitos que você acha no resto do mundo não passe de medo, pois se se permitir identificar-se e apreciar qualquer coisa externa, deixará ela entrar e te tocar, e ser parte de ti. E essa entrega fica impossível quando tudo que conseguimos ter em mente são as reminiscências das decepções passadas, com toda sua carga de dor, de amargura, desespero e principalmente, de solidão.

Então não, decepção não ensina a viver, mas sim faz com que limites sejam impostos às vontades, aos planos e à esperança de se poder ter uma vida diferente, sem medo, sem medo de ter medo, sem rugas e veias entupidas de preocupação.

Decepção e frustração ensinam a viver em caixas, e quer saber? Cansei das minhas.
 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Por enquanto


Não era uma noite de outono, apesar do vento estar suficientemente cortante e gélido.
De sua janela, apreciava a paisagem grotesca que via: muros, cercas, lixo, a casa abandonada em frente à sua. Nada, nenhum sinal de vida; nem lá fora, nem aqui dentro.
Era como se, de repente, o mundo estivesse da forma que sempre o vira, mas que não conseguia provar a ninguém, exceto a si mesma, que essa visão era de fato verídica. Tudo era um grande e imponente vazio.

O som do relógio se fazia presente o dia todo, avisando com seu ar de vitória que mais um dia havia se passado, com suas tantas e tantas horas, e que eu nada havia feito com elas. As horas, todas elas, estavam tão vazias quanto a rua lá fora.
Abriu um pouco a janela, e mal pode suportar as primeiras rajadas de vento que adentraram. Eram exasperadamente congelantes, paralisantes. Pegou seu casaco, não muito grande, e decidiu sair.

As casas e suas arquiteturas lhe chamavam bastante a atenção. Sempre imaginava que tipo de pessoa usaria aquele tipo de janela, teria aquele tipo de carro e pintaria sua casa daquela cor. Imaginava o que se passava dentro de tantas casas nesse exato momento. Apesar da rua estar deserta, sabia que havia vida escondida por detrás dos tijolos.

Tanta vida, tantas possibilidades. Tanto tempo.
Será que sou só eu que não sei o que fazer com as horas?

Andava desapressadamente, apesar do frio, e pensava em qual rumo tomar, à medida que virava a esquina. Se preencher as horas fosse tarefa fácil como dobrar esquinas, certamente escolher não seria tão doloroso. Se voltar no tempo fosse possível, decidir seria banal.
Se passa tanto tempo pensando em o que fazer com o próprio tempo que está se esvaindo nesse exato segundo. Um desperdício, sabia disso.

Enquanto as horas passam devagar, os pensamentos voam velozes, mas não deixam nenhuma concretude.
O vazio se faz presente em quase todas as horas. 
Mas por enquanto. Apenas por enquanto. 
Prometeu a si mesma, e pôs-se a andar.


A única coisa concreta, pelo menos naquele momento, era o vazio da rua e o silêncio da noite. E tantas, tantas histórias - presentes e também possíveis - por detrás dos tijolos.





segunda-feira, 9 de maio de 2011

Abriu os olhos e tudo girou. Parecia que o mundo, inquieto, brincava de qualquer coisa que lhe causava uma das piores sensações no mundo: náusea. Enquanto erguia a cabeça para certificar-se de que estava mesmo em seu quarto, sentia aquela ânsia crescer cada vez mais, e arrependida, voltou a afundar a cabeça no travesseiro. As cortinas estavam abertas, e ela pode fitar mais uma vez o cinza tom de derrota no céu nublado. Estava acostumada com essa visão matinal; tons de derrota estão em todos os lugares, do cinza ao roxo.

Pensava que era preciso viver aquele dia. Mas pra que? Seria tudo sempre igual, sempre. Pensava em tudo que semi-preenchia seus dias. Pensava de um por um, em todos que faziam parte de sua vida e concluía sem muitas novidades de que estava definitivamente sozinha. Sozinha. Quem sabe pra sempre.

Sabia o que era se sentir sozinha. Não fisicamente; não se trata disso. Sozinha com o que realmente se é. Sozinha com tudo aquilo que te faz ser, de fato. Incompreensão é algo que machuca, paralisa e faz com que o mundo tenha tons de derrota. Mas não culpava ninguém. Nem ela mesma conseguia se compreender, como poderia cobrar tal compreensão de outra pessoa? Sabia que não era maldade de ninguém. Mas sabia que estava completamente só.

Já não era novidade ter esses sentimentos. E ficou num silêncio profundo por vários minutos. Silêncio por todos os planos mais uma vez aniquilados por tantos e tantos tons e sobretons de derrota.

Sabia que não poderia seguir em frente mais por muito tempo. Como seguir sem se sentir pertencente a lugar algum? Caminhar, caminhar, para chegar aonde? Qual o objetivo? Qual a possibilidade de caminhar?

E o silêncio, assim, tomava conta da manhã, tão desgastante.

Queria naquele dia algo que simplesmente a lembrasse de ser humana. Humana. Com tudo que isso implica, coisas ruins e coisas piores ainda. Apenas uma palavra de interesse e de compreensão. Apenas isso bastaria pra que se sentisse viva. Pra que sentisse que teria forças pra enfrentar mais um dia em meio a tantos tons, de derrota, de ódio, de tristeza profunda, de desistência.

Quem sabe, somente um abraço fosse capaz de fazer ela se lembrar que está viva. Que existe. Que é tão humana quanto qualquer outra pessoa. Um abraço de compreensão, daqueles que te dizem que tudo passa, e que são apenas dias ruins, e não pro resto dos tempos. Um abraço de uma tarde inteira. Um abraço pra vida toda.

Arrepiou-se. Lembrou-se num lapso de sua memória boicotadora que havia sim algo no mundo que a fizesse saber que o cinza de derrota dos dias não era tão incompreensível assim, e que aliás, era entendivelmente simples. Complexo, porém tão simples quanto a afirmação de que 2 mais 2 são 22.

Hesitou. E permitiu-se concluir que não era mais verdade que não havia sequer uma pessoa no mundo capaz de a entender. Tudo bem que ao longo dos anos, tanta e tanta gente foi embora e foi mandada embora justamente por não fazer idéia do que se passava dentro da sua cabeça. Não gostava de explicar. Ou sente, ou não sente. Mas dessa vez não precisava explicar-se, e isso a extasiava. Não precisava explicar-se!

Não precisava dizer quanto aquele dia doía. Quantos medos tem guardado dentro do armário. Quantas idéias se passavam por minuto em sua cabeça, e principalmente, não precisava explicar que nenhuma delas prestava. Alguém no mundo sabia disso. Alguém no mundo sabia, e não a considerava o pior dos piores por causa disso.

Sentiu-se humana. Sentiu-se maravilhosamente humana. Sentou na cama, e pediu perdão bem baixinho pela injustiça que cometera. Quem sabe esse perdão chegue aos ouvidos, quem sabe. Mas perdão a gente pede com gestos, e não com palavras.

Sentiu-se viva novamente. Sentiu-se compreendida, e isso era tudo que precisava. Por quanto tempo poderá sentir-se assim, acolhida? Pergunta impossível de ser respondida, seja por quem for. Mas, decidiu que preocupar-se com isso seria não viver o dadivoso presente.

Fechou os olhos, deu o melhor sorriso que o dia lhe permitiu. Resolveu enfrentar a vida, pelo menos por hoje. Se o amanhã lhe trouxesse igual sentimento de compreensão, conseguiria preencher seu livro da vida. Afinal, é preciso preencher as páginas em branco com algo, e cansou de derrotas.

Sabia que não estava sozinha. E, assim, se deu conta de toda a magnitudade da vida.